Apesar de a riqueza total das famílias americanas ter atingido níveis recordes, os sinais do dia a dia contam outra história: o endividamento cresce, a confiança do consumidor cai e os pedidos de falência aumentam. Esse contraste ajuda a explicar por que tantas famílias sentem que o dinheiro acaba antes do fim do mês. Em 2025, o total de pedidos de falência nos Estados Unidos subiu 11%, chegando a 565.759 registros, acima dos números de 2024 e 2023. A maior parte veio de consumidores pessoas físicas, cujos pedidos cresceram 12% no ano, somando 533.949 casos. O avanço mais forte ocorreu no Capítulo 7, associado a dívidas sem garantia e pouca capacidade de pagamento, que saltou 15%, alcançando 332.706 registros. Já o Capítulo 13, ligado a planos de pagamento estruturados, também cresceu, mas em ritmo menor, com alta de 6%. Esse movimento não é isolado. Ele reflete uma combinação de juros elevados, custos mais altos com moradia, alimentação e saúde, além de uma desaceleração gradual do mercado de trabalho. Os dados de dezembro chamam atenção: os pedidos de falência foram 21% maiores do que no mesmo mês do ano anterior, indicando que a pressão financeira não ficou restrita a um momento pontual e pode se estender para 2026. Mesmo com a confiança do consumidor em queda — o índice caiu para 89,1 pontos em dezembro, com expectativas futuras em níveis historicamente associados a risco econômico — o consumo seguiu forte. Durante as festas de fim de ano, 37% dos consumidores assumiram novas dívidas, com um valor médio de US$ 1.223 por pessoa. Entre famílias com filhos, a média foi ainda maior. Muitos relataram que levarão meses, ou até mais de um ano, para quitar esses gastos, e 41% ainda pagam dívidas acumuladas no período festivo anterior. O problema se agrava com o custo do crédito. As taxas de juros do cartão permanecem acima de 20% ao ano, transformando despesas pontuais em compromissos prolongados. O saldo médio de cartão chegou a US$ 6.523 por consumidor, em alta na comparação anual, sinalizando maior dependência do crédito para manter o padrão de vida. Ao mesmo tempo, os números agregados mostram um recorde de riqueza: o patrimônio líquido das famílias atingiu US$ 181,6 trilhões no terceiro trimestre de 2025, impulsionado principalmente pela valorização de ações e, em menor grau, de imóveis. O contraste revela uma desigualdade importante: enquanto quem possui ativos financeiros se beneficia da alta dos mercados, muitas famílias lidam com dívidas crescentes e pouca margem no orçamento. Na prática, esse cenário reforça um ponto central da educação financeira aplicada à vida real. Crescimento econômico e recordes de patrimônio não garantem estabilidade individual. Sem organização, reserva de emergência e uso consciente do crédito, famílias continuam vulneráveis a choques, juros altos e ciclos de endividamento que se repetem, especialmente em momentos de consumo mais intenso.

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